Enquanto algumas casas têm louça acumulada na pia, roupas abandonadas sobre uma cadeira e documentos espalhados, em outras, cada objeto é cuidadosamente guardado em seu lugar. A maneira como mantemos nosso espaço pode oferecer alguns indícios sobre o nosso modo de agir.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que a qualidade da moradia desempenha um papel importante na saúde, principalmente em questões relacionadas à segurança.
No entanto, pesquisadores também se interessam pelo que nossa relação com a organização pode revelar.
No modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade, conhecido como Big Five, esse aspecto está especialmente associado à conscienciosidade, traço fundamental que se refere à tendência de uma pessoa a demonstrar autodisciplina, organização, confiabilidade e perseverança.
Pessoas muito organizadas costumam planejar e cumprir prazos. Segundo estudos mencionados pela Universidade de Heidelberg, essa preferência pela ordem também pode estar relacionada a uma necessidade de controle e previsibilidade
A Universidade Ludwig Maximilian de Munique (LMU) também considera o ambiente doméstico um possível suporte para a identidade e o sentimento de pertencimento.
Mas é preciso ter cuidado para não chegar a conclusões precipitadas. Um apartamento perfeitamente arrumado não significa automaticamente que seu morador seja mais consciencioso.
Da mesma forma, uma casa cheia de objetos espalhados não permite definir alguém como desorganizado. O contexto importa, assim como a maneira como cada pessoa vivencia o próprio espaço.
Ainda assim, pesquisas mostram que o ambiente físico pode influenciar alguns comportamentos.
Em 2013, Kathleen Vohs e seus colegas observaram que os participantes colocados em uma sala desorganizada demonstravam mais criatividade, enquanto aqueles instalados em um espaço organizado apresentavam uma tendência maior a optar por escolhas convencionais.
A relação com a organização também pode estar ligada à maneira como vivemos o dia a dia.
Para algumas pessoas, tirar a mesa imediatamente, separar as correspondências assim que elas chegam ou guardar as roupas aos poucos proporciona uma sensação de controle.
Por outro lado, deixar os pratos se acumularem, adiar a organização dos documentos ou viver em meio a objetos que ainda precisam ser guardados pode simplesmente indicar um período corrido.
Um estudo publicado em 2010 por Darby Saxbe e Rena Repetti investigou justamente a maneira como os participantes descreviam suas casas.
Os pesquisadores analisaram as relações entre palavras associadas à desordem ou ao aspecto inacabado da residência e os níveis diários de cortisol, hormônio envolvido na resposta ao estresse.
Evidentemente, o resultado não permite transformar uma sala bagunçada em um diagnóstico psicológico, mas sugere que a percepção que temos de nosso ambiente doméstico pode estar relacionada ao nosso nível de estresse.
A organização, portanto, pode tranquilizar algumas pessoas, enquanto certo nível de desordem também pode favorecer a criatividade em determinadas situações.
É exatamente isso que sugerem os estudos de Kathleen Vohs: ambientes organizados e desorganizados não produzem necessariamente os mesmos comportamentos.
Já a OMS ressalta, de maneira mais ampla, que condições adequadas de moradia podem melhorar a saúde e reduzir alguns riscos, principalmente os acidentes domésticos.
Por fim, é necessário diferenciar hábitos de sofrimento.
Se a necessidade de arrumar tudo se transforma em uma obrigação permanente, acompanhada de comportamentos repetitivos e invasivos, pode estar relacionada a transtornos como determinadas formas de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Nesse caso, é importante buscar acompanhamento adequado.
No fim das contas, sua casa pode refletir seus hábitos, sua carga mental ou sua necessidade de controle em determinado momento, mas nunca é suficiente para resumir sua personalidade.